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Modelos 3DModelo 3D n.º 01Mateus, Vila Real41,2968° N · 7,7124° O

Casa de Mateus

Palácio de Mateus, Vila Real · Monumento Nacional desde 1910

Alçado poente da casa e da capela. Projeção ortográfica da nuvem de pontos, sem perspetiva: cada pixel é o ponto medido mais próximo.
Fig. 01

Alçado poente da casa e da capela. Projeção ortográfica da nuvem de pontos, sem perspetiva: cada pixel é o ponto medido mais próximo.

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A fachada da Casa de Mateus está num rótulo de vinho desde 1942 e é conhecida muito para lá do Douro. No entanto, quem desenhou a casa não está documentado, a data em que ficou pronta muda de fonte para fonte, e não encontrámos nenhum levantamento tridimensional publicado do conjunto28.

Esta página junta duas camadas. A primeira é o que os registos e a bibliografia dizem da casa, com as fontes à vista e as divergências escritas por extenso. A segunda é o que o nosso levantamento mediu, e os desenhos que dele se tiram diretamente, sem redesenho.

01

O levantamento

Entre outubro de 2025 e março de 2026 a casa, a capela, a casa das adegas e o terreiro foram levantados por laser scanner terrestre e por fotogrametria. A nuvem de pontos resulta de 439 estações, registadas no sistema PT-TM06/ETRS89 (EPSG:3763) e reduzidas a uma grelha de 1,5 cm, o que dá 150 milhões de pontos. Sobre ela modelaram-se três edifícios em IFC4 (casa, capela e casa das adegas) e um modelo de 89 espaços, todos georreferenciados por IfcMapConversion. Uma campanha fotográfica de 19 de março de 2026 (1 998 imagens) serviu a fotogrametria de pormenor, de que saiu, entre outros produtos, a malha texturada da capela e do retábulo-mor28.

89estações com corde 439 · outubro de 2025
3 + 1modelos IFC4casa, capela, adegas + espaços
1 998fotografiascampanha de 19.03.2026
2,17 Mpontos na amostra desta páginaum por cubo de 15 cm
Nos modelos IFC4
paredes1 465
janelas182
portas238
colunas522
vigas e barrotes7 310
conjuntos de propriedades24 287
espaços no modelo de zonas89
Medido na nuvem
Planta da casa, com cornijasc. 60 × 33 m
Fachada principal virada aoés-noroeste (azimute c. 295°)
Cota do terreiro poente492,75 m
Cota do pátio de honra493,37 m
Cota do pátio interior493,61 m
Andar nobre acima do rés-do-chão3,15 m IFC
Topo da ala central acima do terreiroc. 17 m
Cruz da capela acima do terreiroc. 24 m

Cotas no referencial do levantamento; rés-do-chão à cota 493,55 m (IfcMapConversion).

O levantamento tem limites, e alguns veem-se nos desenhos desta página:

  1. As coberturas quase não estão na nuvem. O scanner, posto no chão e nos pátios, não vê a água superior dos telhados; onde a planta de conjunto mostra tetos em vez de telhas, é por isso.
  2. Só 89 das 439 estações registaram cor. Os pontos das restantes estão em tons de cinzento, derivados da intensidade do retorno, e nos cortes as duas coisas aparecem lado a lado.
  3. A casa esteve aberta ao público durante a campanha. Visitantes em movimento ficaram na nuvem como figuras translúcidas, sobretudo junto às escadarias.
  4. O modelo que se abre abaixo é uma amostra: um ponto por cada cubo de 15 cm no edificado e de 25 cm no chão em volta, sem as copas das árvores, 2,17 milhões de pontos ao todo. O levantamento completo tem 150 milhões e vive no visualizador HBIM, com os modelos IFC.
2 170 929 pontos · 21,7 MB · WebGL2. Desenha à medida que descarrega.
Arrastar para rodar · roda ou pinça para aproximar · botão direito ou shift para deslocar
02

Desenhos tirados da nuvem

Os quatro desenhos seguintes não foram desenhados. São projeções ortográficas da nuvem, calculadas ponto a ponto a partir de 38 a 118 milhões de pontos cada uma, sem perspetiva e sem retoque. O relevo vem de um sombreamento pela profundidade (eye-dome lighting), a cor é a que o scanner registou. Onde o desenho corta, os pontos a menos de 12 a 14 cm do plano ficam a vermelho, e o que está para lá do corte vai desvanecendo, como numa folha de levantamento.

Importa dizer o que isto não é: não há aqui interpretação de um desenhador, nem fecho de linhas, nem escolha do que é parede e do que é mobília. Um armário encostado a uma parede lê-se como parede. Ou seja, são documentos de medição, e é essa a sua utilidade: o que mostram, existe.

Planta de conjunto, vista de cima. Ao centro a casa; no ângulo nordeste a capela; a norte, do outro lado do terreiro, a casa das adegas; a nascente, o parterre de buxo. O retângulo vazio a poente é o espelho de água: a água não devolve pontos.
Fig. 02

Planta de conjunto, vista de cima. Ao centro a casa; no ângulo nordeste a capela; a norte, do outro lado do terreiro, a casa das adegas; a nascente, o parterre de buxo. O retângulo vazio a poente é o espelho de água: a água não devolve pontos.

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Corte longitudinal pelo eixo da casa, a olhar para norte. Da esquerda para a direita: o pátio de honra (ao fundo, a ala norte), a ala central com a passagem do rés-do-chão e o vestíbulo do andar nobre, o pátio interior e a ala nascente. A vermelho, o que o plano de corte atravessa.
Fig. 03

Corte longitudinal pelo eixo da casa, a olhar para norte. Da esquerda para a direita: o pátio de honra (ao fundo, a ala norte), a ala central com a passagem do rés-do-chão e o vestíbulo do andar nobre, o pátio interior e a ala nascente. A vermelho, o que o plano de corte atravessa.

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Planta do andar nobre, cortada 1,30 m acima do pavimento. A vermelho, as paredes cortadas; a espessura é inferida, é o espaço sem pontos entre as duas faces medidas. As salas intercomunicantes leem-se na fiada de vãos em eixo.
Fig. 04

Planta do andar nobre, cortada 1,30 m acima do pavimento. A vermelho, as paredes cortadas; a espessura é inferida, é o espaço sem pontos entre as duas faces medidas. As salas intercomunicantes leem-se na fiada de vãos em eixo.

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Planta de tetos refletida do andar nobre: os tetos de madeira em gamela, octogonais e em caixotões, vistos de baixo e rebatidos sobre a planta. Ao centro, a falsa abóbada de arestas do vestíbulo.
Fig. 05

Planta de tetos refletida do andar nobre: os tetos de madeira em gamela, octogonais e em caixotões, vistos de baixo e rebatidos sobre a planta. Ao centro, a falsa abóbada de arestas do vestíbulo.

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03

A casa

A planta é em U, com uma ala transversal que divide o espaço entre as alas em dois pátios: a poente, o pátio de honra, aberto para o terreiro; a nascente, um pátio interior de serviço. O SIPA chama-lhe uma planta «pouco comum» e nota a solução do pátio de honra: um murete de cantaria com balaustrada fecha-o sem o fechar, um meio termo entre o U aberto e o U fechado que não corta a fachada principal1. Medida na nuvem, a casa ocupa cerca de 60 por 33 metros, e a fachada principal não está exatamente a poente, mas a oés-noroeste, com azimute de cerca de 295 graus.

As fachadas têm dois pisos, rebocados e caiados, com cunhais em pilastra e cantaria de granito nos frisos, cornijas e molduras. A verticalidade que a casa não tem em altura vem dos pináculos altos e galbados, colocados no enfiamento das pilastras, e das chaminés1. A ala central da fachada principal concentra a decoração: espaldar com o brasão esquartelado (Álvares, Mourões e Botelhos), balaustrada ondulante que acompanha as cornijas curvas, duas figuras alegóricas, escadaria de dois braços a subir para o portal do andar nobre1.

Ala central da fachada principal: o espaldar com o brasão (Álvares, Mourões e Botelhos), a balaustrada ondulante e o portal do andar nobre. Ortofotografia do levantamento.
Fig. 06

Ala central da fachada principal: o espaldar com o brasão (Álvares, Mourões e Botelhos), a balaustrada ondulante e o portal do andar nobre. Ortofotografia do levantamento.

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A balaustrada que fecha o pátio de honra, com urnas sobre acrotérios; ao fundo, a ala central.
A balaustrada que fecha o pátio de honra, com urnas sobre acrotérios; ao fundo, a ala central.Fig. 07 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026
Pátio interior: escadaria de dois braços e patamar comum, com acesso direto ao andar nobre.
Pátio interior: escadaria de dois braços e patamar comum, com acesso direto ao andar nobre.Fig. 08 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026

A casa é também um diagrama social. O rés-do-chão era todo de serviço (tulhas, celeiros, cavalariças, adegas, quartos de criados, cozinha) e só comunica com o andar nobre por uma escada estreita junto à cozinha; as escadarias dos pátios sobem por fora1. No andar nobre, as salas abrem umas para as outras por portas em eixo, e da primeira à última vê-se a paisagem. A planta que D. José Maria traçou no fim do século XVIII ainda permite localizar o cartório junto à sala de jantar e o salão de passagem para a tribuna da capela; o 3.º conde de Vila Real mudou depois a distribuição dos quartos das alas norte e nascente1.

Rés-do-chão: as manjedouras de cantaria das antigas cavalariças.
Rés-do-chão: as manjedouras de cantaria das antigas cavalariças.Fig. 09 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026
Fachada norte, com a varanda de cantaria sobre quatro colunas toscanas.
Fachada norte, com a varanda de cantaria sobre quatro colunas toscanas.Fig. 10 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026
Fachada sul, ortofotografia do levantamento (janeiro de 2026). Doze janelas de sacada com frontão triangular e, no pano central, duas com frontão curvo e vieira.
Fig. 11

Fachada sul, ortofotografia do levantamento (janeiro de 2026). Doze janelas de sacada com frontão triangular e, no pano central, duas com frontão curvo e vieira.

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Construtivamente, é uma casa de paredes portantes de alvenaria de pedra em dois panos, com o miolo preenchido a saibro, tetos de castanho, soalhos de pinho e cobertura de madeira com telha1. Foi essa parede de dois panos que, com o tempo, se deformou: em 2000 mediram-se desaprumos e fissuras, e em 2001 e 2002 a DGEMN ligou os panos com pregagens aderentes e armou o reboco das fachadas1,20. A nuvem de 2025 é, por isso, também um estado de referência para medir o que acontecer daqui para a frente.

04

Autoria: uma atribuição, não um documento

Não se conhece nenhum documento que diga quem desenhou a Casa de Mateus. O nome de Nicolau Nasoni (1691–1773), arquiteto italiano, natural da Toscana, que se fixou no Porto em 1725, entra por argumento estilístico e circunstancial:

  • Robert C. Smith (1966) atribuiu-lhe o projeto pela linguagem; segundo o Património Cultural, limitou a intervenção de Nasoni à conceção, com uma execução que se afasta dos desenhos13,3.
  • O SIPA situa a intervenção no período de 1739 a 1743, a que «geralmente se atribui», lista Nasoni como arquiteto «atribuído» e compara a ala central com o Palácio do Freixo e com a igreja dos Clérigos1.
  • O Património Cultural acrescenta a circunstância: Nasoni está documentado em 1739 na igreja de Santa Eulália da Cumieira, do mesmo morgadio, num intervalo em que não se sabe o que fazia antes de voltar ao Porto. E refere que mais recentemente se liga à casa o nome de António Pereira, arquiteto portuense que terá trabalhado com Nasoni3,14.
  • A Fundação da Casa de Mateus apresenta Nasoni como autor5.

Sendo assim, a redação que nos parece correta é a do próprio SIPA: atribuída a Nasoni, não documentada. A capela tem autoria mais segura na execução, o mestre pedreiro José Álvares do Rego, mas não no desenho1,6.

05

A capela

A capela de Nossa Senhora dos Prazeres está a norte da casa, isolada, ligada ao andar nobre por um passadiço sobre arco. Substituiu uma capela mais antiga, apertada e encostada à casa, e reaproveitou dela o teto de caixotões pintados da sacristia e o retábulo, ambos maneiristas1. A inscrição da fachada, «D. LUD. A. SOUSA AUGM. PERF. ET CORONAT. 1750», dá o ano e o nome de D. Luís António; a Fundação data a inauguração de 17591,6.

A fachada é mais alta do que é: tem a cércea da casa, mas o remate em tabela com frontão de lanços, os vãos em eixo e o brasão fazem-na subir1. Medida na nuvem, a cruz fica a cerca de 24 metros acima do terreiro poente. Por trás, a torre sineira em eixo, pouco comum no distrito, que o SIPA filia na «Escola de Braga». Dentro, a nave coberta por cúpula com lanternim e o retábulo-mor em talha, de marmoreados fingidos. Na capela estão sepultados D. Luís António, D. José Maria, trasladado do Père-Lachaise em 1965, o 3.º conde de Vila Real, o instituidor da Fundação e o seu filho6,1.

A capela vista do jardim, com a torre sineira em eixo.
A capela vista do jardim, com a torre sineira em eixo.Fig. 12 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026
Interior da capela: janela da nave com moldura recortada e concheado.
Interior da capela: janela da nave com moldura recortada e concheado.Fig. 13 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026
Retábulo-mor da capela: tribuna com trono eucarístico de degraus e resplendor, em talha dourada e marmoreados fingidos.
Retábulo-mor da capela: tribuna com trono eucarístico de degraus e resplendor, em talha dourada e marmoreados fingidos.Fig. 14 · Fotografia XYZ BIM, 19.03.2026
06

Jardins e água

Os jardins que hoje se veem são, na maior parte, do século XX, mas seguem o eixo que a casa lhes dá: a sucessão de portais da ala central continua para nascente pelo parterre, pelo túnel vegetal sobre a escadaria e por uma latada sobre esteios de granito em forma de obelisco, que o SIPA admite serem, possivelmente, as únicas sobrevivências do jardim primitivo2.

A tradição atribui o primeiro jardim ao arcediago Diogo Álvares Botelho Mourão, irmão do construtor1,8. Nos anos 1930 a condessa de Mangualde refez o parterre de buxo a nascente, com desenho de Gomes de Amorim; em 1948 plantou-se o túnel sobre a escadaria nascente, António Lino desenhou os três tanques do jardim de água e Paulo Bensliman os parterres de buxo a sul; em 1960 Gonçalo Ribeiro Telles fez o primeiro projeto para a quinta, de onde saiu o grande lago diante da fachada principal1,2. É esse espelho de água, de desenho neobarroco e com talude relvado no interior, que dá à fachada a grandeza que um parterre não daria, como nota o SIPA2. Na nuvem, o lago é um retângulo vazio: a água não devolve o laser.

Duas notas de nomenclatura. A Fundação chama cedros aos mais de oitenta exemplares do túnel e dá-os como mexicanos, o que aponta para o cipreste-do-buçaco (Cupressus lusitanica), nativo do México; o SIPA fala de ciprestes talhados8,2. E a figura feminina deitada no lago desde 1981 é de João Cutileiro, embora o SIPA escreva José8,1.

07

Cronologia

Datas com fonte. Onde as fontes divergem, a entrada di-lo e remete para a secção seguinte.

  1. 1488

    8 de novembro: data do documento mais antigo do arquivo da Casa.1

  2. 1641

    5 de dezembro: o licenciado António Álvares Coelho institui o Morgado de Mateus, vinculado à capela de Nossa Senhora dos Prazeres da quinta.1,6

  3. séc. 17

    Uma primeira casa ocupa o lugar do palácio, com a fachada virada a um caminho público. Em 1619 morre nela o Dr. Cristóvão Álvares Coelho.1

  4. 1721

    António José Botelho Mourão, 3.º morgado, casa com D. Joana Maria de Sousa Mascarenhas. É ele quem constrói a casa atual; ela queixar-se-á mais tarde do esgotamento financeiro que as obras causaram.1,3

  5. 1739–1743

    Período a que o SIPA atribui a intervenção de Nicolau Nasoni. Em 1739 Nasoni está documentado na igreja de Santa Eulália da Cumieira, do mesmo morgadio.1,3

  6. 1743

    Novembro: o procurador-geral da Mitra de Braga escreve que António José «teve coração para demolir um palácio para edificar outro melhor». A obra vai adiantada; nesse ano é pedida licença para uma capela nova.1,6

  7. 1744

    A Fundação da Casa de Mateus dá a casa por concluída. Nenhuma fonte publicada que conhecemos documenta a data; o Património Cultural não sabe ao certo quando começou.5,3

  8. 1750

    Inscrição na fachada da capela: «D. LUD. A. SOUSA AUGM. PERF. ET CORONAT. 1750», que se lê como D. Luís António de Sousa aumentou, completou e coroou. Mestre pedreiro: José Álvares do Rego.1

  9. 1759

    Inauguração da capela nova, segundo a Fundação.6

  10. 1765–1775

    D. Luís António de Sousa Botelho Mourão, 4.º morgado, governa a capitania de São Paulo. Em Mateus, D. Leonor de Portugal administra a casa e faz o sistema de águas, com o tanque do obelisco.1,21

  11. 1817

    Em Paris, D. José Maria de Sousa Botelho, 5.º morgado, edita Os Lusíadas na oficina de Firmin Didot, com gravuras a partir de desenhos de François Gérard, Évariste Fragonard e Alexandre Desenne.7,1

  12. 1823

    O filho, D. José Luís, recebe o título de conde de Vila Real.1

  13. 1850–1900

    O 3.º conde de Vila Real muda a compartimentação do andar nobre, abre lareiras, amplia a casa das adegas e, em 1871, manda plantar o grande Cedrus deodara junto ao terreiro.1

  14. 1910

    Decreto de 16 de junho (Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho): o palácio é classificado Monumento Nacional.3,1

  15. 1930–1946

    A condessa de Mangualde refaz o jardim a nascente, com desenho de Gomes de Amorim.1,2

  16. 1942

    Lançamento do vinho Mateus Rosé, da Sogrape, com uvas da quinta e a casa no rótulo.11,25

  17. 1948

    Túnel de cedros sobre a escadaria nascente; tanques do jardim de água, de António Lino; parterres de buxo de Paulo Bensliman.1

  18. 1960–1963

    Gonçalo Ribeiro Telles projeta o grande lago diante da fachada principal; o SIPA dá-o por concluído em 1963.1,2

  19. 1965

    15 de agosto: os restos mortais de D. José Maria vêm do Père-Lachaise para a capela.1

  20. 1970

    3 de dezembro: D. Francisco de Sousa Botelho de Albuquerque institui a Fundação da Casa de Mateus e doa-lhe o conjunto, com arquivo, biblioteca e coleções.9

  21. 1981

    Uma figura feminina de mármore, de João Cutileiro, fica deitada no espelho de água.8,1

  22. 1990

    Gustav Leonhardt inaugura o órgão da capela. Os Encontros Internacionais de Música da Casa de Mateus existiam desde o fim dos anos 1970.1

  23. 2001–2002

    Depois de deformações medidas em 2000, a DGEMN reforça a estrutura: pregagens a ligar os dois panos das paredes, reboco armado nas fachadas, cobertura nova no salão nobre.1,20

  24. 2025–2026

    Levantamento XYZ BIM: 439 estações de laser scanner (outubro de 2025), campanha fotográfica para fotogrametria (março de 2026), três modelos IFC4 e um modelo de espaços (julho de 2026).28

08

Morgados, condes e uma fundação

Segundo a Fundação, a casa foi habitada por doze gerações da mesma família até 19705. O arquivo guarda documentos desde 1488, organizados por administradores da casa1,22; a biblioteca tem mais de seis mil títulos7.

NomeDatasPapel na casa
António Álvares Coelhoinstitui o morgado (1641)
António José Botelho Mourão3.º morgado; constrói a casa atual
Diogo Álvares Botelho Mourão1673–1744arcediago de Labruje; a tradição atribui-lhe o primeiro jardim; reúne em Roma as relíquias da capela
D. Luís António de Sousa Botelho Mourão1722–17984.º morgado; governador da capitania de São Paulo (1765–1775); o nome da inscrição de 1750
D. Leonor Ana Luísa Josefa de Portugal1722–1806administra Mateus na década de 1760
D. José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos1758–18255.º morgado; diplomata; editor de Os Lusíadas (Paris, 1817)
D. José Luís de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos1785–18551.º conde de Vila Real (1823)
D. Maria Teresa de Souto Botelho e Melocondessa de Mangualde; jardim a nascente (anos 1930)
D. Francisco de Sousa Botelho de Albuquerque1909–1973institui a Fundação da Casa de Mateus (1970)
D. Fernando de Sousa Botelho de Albuquerque1941–2022dirige a Fundação de 1973 a 2022

O objeto mais conhecido da biblioteca é a edição de Os Lusíadas que D. José Maria fez imprimir em Paris em 1817, na oficina de Firmin Didot. Diplomata na Suécia, na Dinamarca, em França e na Rússia, levou quatro anos a preparar a edição e distribuiu os exemplares pessoalmente. A Fundação fala de um exemplar em pergaminho e de outros duzentos e dez; o SIPA, de um em pergaminho e dez em papel7,1. A casa guarda também documentos, provas e chapas da edição.

Desde 1970 a casa é de uma fundação privada com utilidade pública (reconhecida em 1971), que mantém o museu, os jardins, a adega em atividade e um programa cultural: os Encontros Internacionais de Música, iniciados no fim dos anos 1970 com direção de Gustav e Marie Leonhardt, o Prémio D. Diniz desde 1980, um seminário de tradução de poesia desde 1990, residências artísticas10,23. Em 2023 o museu e o parque tiveram 111 131 visitantes12.

09

O rótulo

Em 1942 a Sogrape, de Fernando van Zeller Guedes, lançou um vinho rosado com o nome da quinta e o desenho da casa no rótulo11,25. A Fundação diz que D. Francisco de Sousa Botelho de Albuquerque participou na criação; a marca atribui-a só a Guedes11,24.

Conta-se, e repete-se muito, que ao dono da casa foi oferecido um tanto por garrafa e que ele preferiu um pagamento único. Há pelo menos três versões publicadas, com números diferentes (um prémio de 30 ou de 40 por cento sobre as uvas da quinta), todas de cronistas do vinho e nenhuma com um documento por trás25,26,27. Registamo-la como o que é: uma história, não um facto.

10

Obras e consolidações

O SIPA regista 29 intervenções entre 1949 e 2003. O gráfico conta-as por década e por quem as fez: Câmara Municipal de Vila Real, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) e a própria Fundação1.

Intervenções registadas no SIPA, por década
1940s · Câmara Municipal: 111940s1950s · Câmara Municipal: 11950s · DGEMN: 231950s1960s · DGEMN: 771960s1970s · DGEMN: 331970s1980s · DGEMN: 51980s · Fundação: 271980s1990s · Fundação: 551990s2000s · DGEMN: 22000s · Fundação: 132000s
Câmara MunicipalDGEMNFundação

Há uma mudança de mão visível. Até ao fim dos anos 1980 é a DGEMN que trata das térmitas, do caruncho, das coberturas e de uma cornija que caiu em 1979; a partir de 1985 é sobretudo a Fundação, com protocolos com a Secretaria de Estado da Cultura, que recupera armazéns, a cozinha velha, o lagar e a destilaria para residências de artistas. A consolidação estrutural de 2001 e 2002 volta a ser da DGEMN, depois do estudo de anomalias do LNEC de 19961,19.

11

O que as fontes não resolvem

Nove pontos em que as fontes consultadas não coincidem, ou em que a afirmação corrente não tem documento:

  1. A autoria. Nicolau Nasoni é uma atribuição estilística (Smith, 1966; SIPA); o Património Cultural refere também António Pereira; a Fundação dá Nasoni como certo13,1,3,5.
  2. A conclusão da casa. Em novembro de 1743 a obra ia adiantada; a Fundação dá-a por acabada em 1744; o Património Cultural não sabe quando começou1,5,3.
  3. A capela. A inscrição diz 1750, a Fundação data a inauguração de 1759; o pedido de licença de 1743 é de António José segundo a Fundação e de D. Luís António segundo o SIPA1,6.
  4. Os Lusíadas de 1817. Um exemplar em pergaminho e 210 em papel (Fundação) ou um e 10 (SIPA)7,1.
  5. O escultor do lago. João Cutileiro (Fundação); o SIPA escreve José Cutileiro, que foi diplomata e escritor8,1.
  6. O lago. Construído nos anos 1950 (Fundação) ou concluído em 1963 (SIPA)8,1.
  7. A Fundação. Instituída a 3 de dezembro de 1970 (Fundação); o Património Cultural escreve 1971, que é o ano da utilidade pública9,3,10.
  8. O rótulo. O pagamento único em vez de uma percentagem é uma história sem documento publicado25,26,27.
  9. A extensão da classificação. O decreto de 1910 classifica o palácio; a ficha dos jardins diz-os só parcialmente incluídos na zona de proteção, e não encontrámos o texto do decreto para saber se nomeia a capela e os jardins3,2.
12

Nos registos

A Casa de Mateus é Monumento Nacional pelo decreto de 16 de junho de 1910 e está dentro da zona especial de proteção do Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial, embora não dentro do bem inscrito3,4. No SIPA tem duas fichas, o palácio (IPA.00005990) e os jardins (IPA.00007011); no Património Cultural, a ficha 71128.

Na comparação entre os registos de Portugal, França e Espanha medimos o que cada ficha traz. A do palácio é das mais completas do SIPA: entre as 860 fichas de Monumento Nacional, a sua descrição é a 47.ª mais longa e a lista de intervenções a 51.ª.

A ficha SIPA do palácio contra a mediana das 860 fichas de Monumento Nacional

descrição (caracteres)10 912 · mediana MN 1 594
47.ª de 860
entradas de cronologia51 · mediana MN 12
102.ª de 860
intervenções29 · mediana MN 4
51.ª de 860
títulos de bibliografia12 · mediana MN 8
256.ª de 860
imagens34 · mediana MN 13
76.ª de 860
13

Fontes

  1. 1
    SIPA, «Palácio de Mateus», IPA.00005990 (Isabel Sereno 1994, Paula Noé 2006). Direção-Geral do Património Cultural / IHRU. web.archive.org ↗
  2. 2
    SIPA, «Jardins do Solar de Mateus», IPA.00007011 (Paula Simões 1999, Paula Noé 2006). web.archive.org ↗
  3. 3
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    XYZ BIM, levantamento da Casa de Mateus: nuvem de pontos (439 estações, EPSG:3763), modelos IFC4 (22.07.2026), ortofotografias e peças desenhadas (15.01.2026). hbim.xyzbim.eu ↗

A casa foi sempre feita por camadas: uma casa do século XVII demolida para outra melhor, uma capela que substituiu outra, quartos redistribuídos no século XIX, jardins refeitos no XX, paredes cosidas no XXI. Um levantamento não é exceção. Não resolve a autoria nem as datas, mas fixa o estado da casa em 2025 com uma precisão que nenhuma das camadas anteriores deixou, e torna-o consultável por quem vier a seguir.

XYZ BIM · Publicado · 2026-09-23